A obra de Joana Vasconcelos assume uma singular capacidade de dialogar com o espaço e jogar com os diferentes tempos. Passado, presente e futuro manifestam-se com substrato único nas obras da artista e ampliam os níveis de significação quando interagem com o espaço, particularmente quando os lugares encerram uma memória densa e qualidades plásticas e arquitetónicas ricas.
Joana Vasconcelos já provou que o espaço é também ele parte integrante do seu trabalho; por isso, quando se cruzam, obra e lugar, conhecem diferentes matizes. Se a obra recebe um suplemento de significação com a presença no espaço, também é verdade que retribui com generosidade, enriquecendo o lugar com conceitos transgressores da moldura cristalizada do quotidiano, resultado das engenhosas operações de deslocação que servem o trabalho de Vasconcelos.
Esta particular e feliz relação entre o lugar e a obra já conheceu diferentes abordagens. As obras da artista foram expostas em lugares tão diversos como o Palácio de Versalhes; o Palazzo Grassi, em Veneza; o Castelo de Santa Maria da Feira; a Torre de Belém, em Lisboa; a Ponte D. Luís, no Porto; a Pinacoteca do Estado, em São Paulo; o Museu Coleção Berardo, em Lisboa; a entrada do antigo Arsenale, em Veneza; ou a discoteca Lux, em Lisboa; espaços com memórias, arquiteturas e públicos muito diferenciados, não deixando, ainda assim, de produzir resultados surpreendentes e uma recetividade notável.
A exposição proposta para o Palácio Nacional da Ajuda, constituiu uma oportunidade única para dar a conhecer uma nova dimensão do palácio e do trabalho de Joana Vasconcelos. O ambicioso núcleo de obras, criteriosamente selecionado para a exposição – perto de 40 obras -, traduz sensivelmente a última década de trabalho da artista, reunindo peças icónicas, como A Noiva, Coração Independente Vermelho, Marilyn, ou Jardim do Éden e outras mais recentes, nunca expostas em Portugal, como Lilicoptère, Perruque, A Todo o Vapor, ou War Games.
Convocar este núcleo forte do trabalho da artista para contracenar com a singularidade dos interiores da Ajuda, onde se destacou a minúcia do trabalho artesanal, a riqueza dos têxteis, e a presença do naturalismo significa dar vida e sentido contemporâneo a um lugar que também no passado convocou artistas para dialogarem e habitarem o espaço através da arte.
As grandes individuais realizadas no Museu Coleção Berardo (Sem Rede, 2010) e no Palácio Nacional da Ajuda (Joana Vasconcelos, 2013) são as duas exposições mais visitadas em Portugal, com cerca de 168 mil e 235 mil visitantes, respetivamente.