Glasshouse é inteiramente produzida em vidro Murano pelo Berengo Studio, em Veneza. Com cerca de dois metros de altura, a obra recria uma casa de brincar, contudo, a extrema fragilidade do vidro contradiz esse imaginário: aquilo que aparenta convidar à interação revela-se intocável, instaurando um paradoxo entre familiaridade e inacessibilidade.
A utilização do vidro como elemento estrutural evoca as utopias arquitetónicas da modernidade, nomeadamente as experiências de arquitetos como Walter Gropius, Ludwig Mies van der Rohe ou Le Corbusier, para quem a transparência simbolizava uma nova ordem social fundada na racionalidade, na abertura e no progresso. Em Glasshouse, esse ideal modernista é simultaneamente convocado e questionado, revelando a ambivalência da transparência enquanto promessa de liberdade e instrumento de exposição.
A obra dialoga igualmente com o projeto cinematográfico nunca realizado The Glass House (1926–1930), concebido por Sergei Eisenstein. Ambientado num arranha-céus integralmente transparente, o filme imaginava uma sociedade onde todos vivem permanentemente sob o olhar dos outros, transformando a transparência numa metáfora para a vigilância, o controlo e a erosão da intimidade.
Em Glasshouse, Joana Vasconcelos desloca estas reflexões para a esfera doméstica e afetiva. A casa, tradicionalmente entendida como lugar de proteção e refúgio, torna-se completamente transparente, anulando qualquer possibilidade de privacidade. A utopia modernista ressurge, assim, num contexto simultaneamente familiar e inquietante, onde a transparência deixa de representar emancipação para revelar a vulnerabilidade da condição humana.





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